Natal do Senhor


Inicio esta reflexão retomando o primeiro versículo do profeta Isaías: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu”.

Natal é celebração da luz, ainda perdura o costume de iluminar as casas, lojas, empresas, igrejas, praças e ruas com luzes, pisca-piscas, tudo muito bonito, decorativo, alegre, mas a verdadeira iluminação é a liturgia celebrada com toda fé, toda convicção, consciente e ativa.

A liturgia que ora celebramos do mistério da Encarnação de Jesus só tem sentido por que se une ao mistério Pascal presente em toda missa; o Verbo de Deus se encarna, se aproxima de nossa humanidade quase sempre envolvida na escuridão do mal, do pecado justamente para clarear, iluminar nossos passos.

Há um paralelo entre a cena da manjedoura e a cena do calvário onde a madeira da manjedoura se une à madeira da cruz, o recém-nascido envolto em faixas se une ao corpo do Senhor envolto em lençois e sudário mortuários.

Entre o nascer e o morrer de Jesus está sua vida de encarnado trazendo a todos a salvação pelo seu Evangelho conforme atesta a Carta a Tito: “A graça de Deus se manifestou, trazendo salvação para todos os homens”, e explicita a Carta o que é deixar-se caminhar pela salvação com uma vida iluminada em ações de verdade como abandonar a impiedade e as paixões mundanas vivendo com equilíbrio, justiça e piedade.

Esta luz da Encarnação de Jesus é motivo e razão de alegria como escreve o profeta Isaías: “Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade”, pois é possível viver uma nova realidade sem sofrimento, opressão, sem sangue e morte, pois um menino nasceu um filho foi dado e traz o nome de Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz. Esta profecia se realizou na encarnação de Jesus que traz a grandeza do Reino e a Paz duradoura.

Pois bem, o Natal celebrado na liturgia revive em nós todo este mistério da iluminação salvífica de Deus por meio do seu Filho, mas ao sairmos da liturgia e nos depararmos com tantas realidades envolvidas em trevas podemos ficar escandalizados, decepcionados e desmotivados da própria fé, sobretudo quando vemos estas escuridões tomarem proporções devastadoras dentro da própria Igreja como ocorre por todo lado.

Como reagir? O que fazer? Como prosseguir? Não perdendo a crença no mistério da Encarnação e vivendo o sentido desta Encarnação em nossa própria encarnação. Como entender? Olhando continuamente para a nossa frágil humanidade, reconhecendo que não temos grandeza alguma senão tornar nosso interior a manjedoura que acolha a grandeza divina a nos iluminar com a verdade, humildade, respeito, retidão e amor.

A iluminação pelo nascimento do Senhor deve derrubar máscaras, destronar autoritarismos, encarcerar os que cometem delitos e escândalos na fé, desmoronar orgulhosos e arrogantes, lançar ao chão corações egoístas e presunçosos, sentenciar mercenários e enriquecimentos ilícitos.

A iluminação pelo nascimento do Senhor deve nortear nossa vida a ponto de progressivamente permitirmos nos confrontar com nossas trevas, nossas escuridões e expulsá-las por uma vida autêntica diante de Deus, pois o nascimento do Senhor é a entrega por nós para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem.